Terça-feira, 24 de julho de 2018

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Zero transmissão significa risco zero – para homens gay como para heterossexuais

Alison Rodger na conferêncoia de imprensa do PARTNER 2. Fotografia de Gus Cairns.

A probabilidade de uma pessoa que vive com VIH com carga viral indetetável transmitir a infeção pelo VIH ao seu parceiro sexual equivale cientificamente a zero, segundo confirmaram hoje os investigadores na 22ª Conferência Internacional sobre SIDA (IAS) em Amesterdão.

Os resultados finais do estudo PARTNER foram apresentados durante a conferência de imprensa que se realizou da parte da manhã. Os resultados inicialmente apresentados em 2014 correspondentes à fase 1, PARTNER 1, já indicavam “Undetectable=Untransmittable” (U=U) / “Indetetável=Intransmissível” (I=I). Contudo, a certeza estatística deste resultado não foi tão convincente no caso dos homens gay ou para o sexo anal como para o sexo vaginal.

Os resultados do PARTNER 2, fase 2, que apenas recrutou casais de homens gay indicam, de acordo com os investigadores, “uma taxa precisa de transmissão zero” para os casais de homens gay e heterossexuais.

O estudo PARTNER recrutou casais serodiscordantes para o VIH (um parceiro a viver com VIH e o outro seronegativo para o VIH) em 14 países europeus. O estudo não encontrou nenhuma transmissão da infeção pelo VIH entre os casais de homens gay com um dos parceiros a ter carga viral abaixo das 200 cópias/ml – apesar de terem ocorrido cerca de 77 000 relações sexuais sem o uso do preservativo.

O estudo PARTNER 2 diz-nos que U=U/I=I é tão forte para os homens gay (e para o sexo anal) como para heterossexuais.

A mensagem “Undetectable=Untransmittable”/ “Indetetável=Intransmissível” torna-se viral

Diapositivo da apresentação de John Blandford sobre a campanha U=U / K=K no Vietnam

Na Guatemala, o slogan é “Indetetável = Intransmissível” (I=I); na Holanda é “Niet meetbaar = Niet overdraagbaar” (N=N); e na Turquia é “Belirlenemeyen = Bulaştırmayan” (B=B). Um dos aspetos mais surpreendentes da pré-conferência sobre ‘Undetectable=Untransmittable’ (U=U) / “Indetetável=Intransmissível” (I=I) foi a dimensão da campanha por todo o mundo.

Este ano é assinalado o décimo aniversário da Declaração Suíça, que correspondeu ao primeiro documento publicado a afirmar que, sob circunstâncias definidas, as pessoas que vivem com VIH com carga viral suprimida devido ao tratamento antirretroviral não transmitem a infeção pelo VIH. 

Anthony Fauci, provavelmente o cientista norte-americano mais experiente, reviu a evidência científica que sustenta a campanha U=U/ I=I. Desde os meados da década 90 que os dados demostram a relação inversa entre o nível do vírus e a acumulação da taxa de transmissão da infeção pelo VIH. A introdução da terapêutica de combinação foi o “momento decisivo para o U=U/ I=I e nem nos apercebemos”, afirmou.

Contudo, em muitos países de médio e baixo rendimento, a monitorização da carga viral de rotina não é disponibilizada, tornando impossível para uma pessoa ter confiança de que tem carga viral indetetável. A evidência U=U/I=I reforça o argumento de que é necessário o acesso à monitorização de rotina da carga viral.

Uma área ainda de incerteza científica diz respeito à amamentação. Linda-Gail Bekker, da Desmond Tutu HIV Centre in South Africa, afirmou que há ainda lacunas nos dados, mas há claramente uma forte relação entre a carga viral e a possível transmissão da infeção pelo VIH durante a amamentação.

TAR baseada no dolutegravir é recomendada para todos – se estiverem disponíveis contracetivos eficazes

Uma mulher na manifestação do dolutegravir durante a AIDS 2018. ©International AIDS Society/Marten van Dijl

A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou as novas orientações para o tratamento antirretroviral e recomenda regimes terapêuticos baseados no dolutegravir como preferencial para adultos, adolescentes e crianças, incluindo mulheres e raparigas adolescentes que tenham acesso a contracetivos eficazes de forma regular.

Os oradores da conferência AIDS 2018 afirmam que esta decisão destaca a enorme lacuna no acesso a contraceção eficaz e à sua ausência nos programas de prevenção, em especial, nos países da África subsaariana, onde o acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva revela-se como um grande desafio para os programas de tratamento.

As orientações foram divulgadas no dia de abertura da conferência, onde as mulheres que vivem com VIH da África subsaariana demonstraram a reivindicação de que elas, não os

Ministérios da Saúde, devem decidir se o dolutegravir é ou não disponibilizado. O protesto surge como resposta às recentes decisões de alguns países refrearem o uso de dolutegravir em mulheres em idade fértil devido a preocupações com a segurança do medicamento nos estadios iniciais de gravidez.

Os Ministérios da Saúde e as mulheres que vivem com VIH devem avaliar o risco de defeitos do tubo neural – que é reduzido pelo suplemento do ácido fólico – quando o dolutegravir é usado para evitar riscos maiores de carga viral não suprimida, efeitos secundários ou resultados adversos em partos que não o defeito do tubo neural, quando sob efavirenz ou outros fármacos antirretrovirais usados em vez de dolutegravir.

Os países também têm de considerar a medição do risco-benefício ao nível da população, afirmou Meg Doherty da OMS. Isto inclui níveis de fertilidade, disponibilização e cobertura de contraceção, níveis de resistências aos medicamentos antirretrovirais e disponibilidade de fármacos.

As pessoas a tomar dolutegravir no Brasil têm maiores probabilidades de estarem em supressão vírica

Diapositivo da apresentação de Mariana Veloso Meireles na AIDS 2018.

As pessoas a receber tratamento antirretroviral baseado em dolutegravir através do programa nacional de tratamento brasileiro tinha muito mais probabilidades de ter carga viral indetetável seis meses depois do início do tratamento, de acordo com uma análise de todos os pacientes que iniciaram tratamento entre 2014 e 2017.

O Brasil foi um dos primeiros países de rendimentos médios a adotar um regime baseado em dolutegravir como preferencial na primeira linha de tratamento, no início de 2017. O dolutegravir é um inibidor de integrasse com uma alta barreira a resistências.

Para avaliar a eficácia do dolutegravir em comparação com outros fármacos usados para o tratamento de primeira linha, o Ministério da Saúde brasileiro levou a cabo uma análise da supressão vírica em 103 240 pessoas, depois de seis meses do início do tratamento, que tinha iniciado o tratamento entre janeiro de 2014 e julho de 2017.

A taxa de supressão vírica, seis meses depois de iniciar o tratamento, variava entre 63,7% nos que tinham iniciado um regime com tenofovir, lamivudina e lopinavir/ritonavir (2% da coorte) e 85,2% nos que tinham iniciado tratamento com tenofovir, lamivudina e dolutegravir (7,2%).

Uma análise de controlo de outro fatores revelou que as pessoas que tomavam dolutegravir com tenofovir e lamivudina tinham mais 42% de probabilidades de ter carga viral indetetável (<50 copies/ml) seis meses depois de iniciar o tratamento que as pessoas que estavam a receber efavirenz com tenofovir and lamivudine.

Estas descobertas reforçaram as recomendações da Organização Mundial de Saúde de que os regimes baseados em dolutegravir devem ser preferências em primeira linha para adultos e adolescentes a iniciar tratamento antirretroviral.

PrEP intermitente tão eficaz como a dose diária no primeiro ano do estudo francês da PrEP

Jean-Michel Molina na conferência de imprensa do Prévenir. Foto de Roger Pebody.

Não houve novas infeções pelo VIH num estudo de demonstração de PrEP (profilaxia pré-exposição) na França. Mais da metade dos participantes optou pela PrEP intermitente, tendo os restantes optado pela dosagem diária, mas ambas as opções foram igualmente eficazes, disse Jean-Michel Molina, da Universidade de Paris Diderot, numa conferência de imprensa em Amsterdão hoje.

O estudo "Prevenir" (prevenção) reúne dados sobre as melhores maneiras de distribuir a PrEP em Île-de-France, que é a região de Paris e seus subúrbios. Os investigadores esperam demonstrar que ter mais de 3.000 pessoas tomando a PrEP resultará em uma diminuição acentuada nos diagnósticos de VIH entre homens que fazem sexo com homens na região.

Molina apresentou dados sobre o primeiro ano (desde maio de 2017) do estudo de três anos. Um total de 1628 pessoas foram recrutadas, quase todas (98,8%) eram homens que fazem sexo com homens. Doze homens e mulheres heterossexuais, bem como oito pessoas transexuais, também participaram.

Os participantes podiam optar por seguir o esquema de dosagem intermitente (às vezes chamado de dosagem conduzida por eventos ou baseada em eventos) que foi validada no estudo IPERGAY, ou pela dosagem diária, que é mais comumente usada em outras partes do mundo. A PrEP intermitente envolve tomar uma dose dupla de PrEP (dois comprimidos) de 2-24 horas antes do sexo previsto e, em seguida, se o sexo acontecer, comprimidos  adicionais 24 horas e 48 horas após a dose dupla.

Houve zero infeções em ambos os grupos. Os pesquisadores estimam que, até agora, 85 infeções por VIH foram evitadas nesta coorte de 1628 pessoas.

Análise Científica da Clinical Care Options

O Clinical Care Options (CCO) é um fornecedor on-line oficial de análise científica para a conferência.

A cobertura incluirá resumos de dados clínicos importantes, slides para download e comentários dos professores especialistas sobre os principais estudos de prevenção e tratamento do HIV.

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Tradução disponibilizada por:

GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos

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